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Assoprou as velas e fez um pedido. Não sabendo o que pedir, pediu o mesmo de sempre. A diferença é que não esperava mais conseguir o que queria. Nunca conseguia, mesmo, então já tinha aprendido a não ficar confiante. Se viesse, ficaria feliz. Se não viesse, não ficaria chateada.

Enquanto comia o bolo, pensou em quanto esse papo de pedido era esquisito. Quer dizer: se ela não acreditava que seria realizado, por que pedir? Tradição? Se o pedido era secreto, feito no pensamento, e ninguém mais saberia se ela pediu algo ou não, porque ela insistia em manter a tradição? Quem saberia se quebrasse? Se perguntassem a ela “o que você pediu”, ela sempre poderia se esconder atrás do “não posso dizer ou não vai se realizar” e ninguém falaria nada. Pensando nisso, sorriu: cada coisa besta que fazíamos sem pensar, não é?

Resolveu, então, que não deixaria a tradição barato: se ela podia, iria inovar em algo. Iria contar o que tinha pedido – afinal, se não ia realizar, mesmo, qual era o problema de contar? Sim, se alguém perguntasse, ela contaria, estava decidida. Contaria e contaria e contaria! Era só esperar, toda festa tinha alguém que perguntava isso...

Todos terminaram o bolo. Conversavam animadamente, sobre os mais diversos assuntos. Mas ninguém perguntava para ela o que ela tinha desejado ao assoprar a vela. Mas perguntariam, ela tinha certeza.

Ou não tinha: quando os primeiros convidados começaram a ir embora, sua certeza diminuiu. Começou, então, criar situações, dando indiretas para que perguntassem... “Mas você nem imagina o que eu pedi quando assoprei a velinha...” “Seria tão bom que o meu pedido fosse atendido...” e as pessoas pareciam ignorar o comentário e seguiam adiante, sem perguntar nada.

Quando a última pessoa, uma tia quarentona que sempre era a primeira a chegar e a última a partir, começou a se preparar para ir embora, ela pensou com ela mesma: é agora ou nunca. E disse: “Mas tia, você precisa saber o que eu pedi...” ao que a tia respondeu; “Está louca, menina? Se contar, o pedido não realiza!”. E deu dois beijinhos – ou melhor, três para casar! – e foi embora.

Então ela voltou revoltada para sua cama. Era absurdo isso: nem quebrar uma tradição idiota ela conseguia. Saco.

Dormiu. No dia seguinte, não lembraria mais de sua raiva. Na semana seguinte, não lembraria mais do pedido. No mês seguinte, teria ele finalmente realizado. E no ano seguinte, não fez pedido porque... nunca se realizava, mesmo...(27102011)

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