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Eles estavam sentados à mesa. A troca de olhares dizia mais do que as palavras que emitiam. Até porque não emitiam nenhuma. Estavam bravos um com o outro, e isso estava claro. Houvesse mais alguém por perto, essa pessoa também notaria isso. Mas era melhor não ter.

As decisões eram duras e ela estava preparada para tomá-las. Ele não. Ou seria exatamente o contrário? Cada um dos lados pensava da forma que lhes convinha, e essa forma era clara: o outro não estava preparado; o outro era o problema; o outro não queria. O outro, nunca eles.

O telefone tocar os tirou daquela posição de incógnita que passava por eles. E por um ou dois toques, os olhares voltaram a se cruzar, para checar se o outro iria atender. Mas a resposta foi inconclusiva, e nenhum dos dois se mexeu. No quarto toque, ambos se levantaram. Ele foi quem começou a falar:

- Agora que eu me levantei para atender, você vai atender, também?

- Eu achei que você iria atender.

- Eu atenderia se você não tivesse deixado claro que iria fazê-lo.

E, como se fosse mágica, ambos notaram que os toques tinham parado.

- Agora a pessoa desistiu de falar. – ele gritou: - E se fosse algo importante?

- Se fosse algo importante? Está esperando o telefonema de alguém? – ela berrou, em resposta.

- E se eu estivesse?

- Como ousa, seu... imbecil?

- Por quê? Vai começar a controlar minha vida, os telefonemas que eu recebo, o que eu faço?

- Eu deveria?

- Pelo visto você acha que sim...

- Pelo visto eu deveria!

- Mesmo que não devesse, já está fazendo, não é?

- E se estivesse, por que isso incomoda tanto?

A pergunta que não deveria ter sido feita. Os dois desviaram o olhar, sabendo a resposta. E querendo, talvez, evitá-la, como queriam evitar a decisão que precisavam tomar. Então o telefone voltou a tocar. Ela respirou fundo e disse:

- Atende, deve ser para você.

E teria se afastado se ele não a tivesse segurado:

- Eu te amo. Você é a pessoa mais importante para mim.

Então, com lágrimas nos olhos, ela o abraçou. Não precisaria dizer mais nada: ela também o amava, ele também era a pessoa mais importante da vida dela.

Ficariam juntos por muito tempo, após aquele abraço. As decisões duras seriam novamente adiadas. De qualquer forma, nenhum deles estava preparado para tomá-las. E, tivessem tomado, possivelmente se arrependeriam para sempre: ainda não era a hora. Talvez nunca fosse a hora. E era melhor assim. (15092011)

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